A nova corrida por minerais críticos está redesenhando o mapa econômico mundial

Por Redação NVN · Publicado em · 5 min de leitura

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A transição energética, a expansão da inteligência artificial e a digitalização da economia estão criando uma nova disputa por recursos que, durante décadas, foram tratados principalmente como commodities. Lítio, cobre, níquel, grafite, cobalto e terras raras passaram a ocupar uma posição estratégica porque estão presentes em baterias, redes elétricas, veículos elétricos, sistemas de armazenamento, equipamentos eletrônicos, ímãs permanentes e diversas tecnologias avançadas.

Lítio, cobre, níquel, grafite, cobalto e terras raras passaram a ocupar uma posição estratégica porque estão presentes em baterias, redes elétricas, veículos elétricos, sistemas de armazenamento, equipamentos eletrônicos, ímãs permanentes e outras tecnologias avançadas.

A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que a demanda por minerais críticos continuará crescendo fortemente. No cenário de políticas declaradas, a demanda praticamente dobra até 2040, enquanto a de lítio mais que triplica. O cobre apresenta o maior crescimento absoluto em volume, impulsionado principalmente pela expansão das redes elétricas e pelas novas tecnologias.

O ponto central, porém, não está apenas na quantidade de minerais disponíveis. Está em quem controla a extração, o processamento e as etapas industriais que transformam essas matérias-primas em produtos de maior valor.

É essa concentração que está transformando a mineração em uma questão estratégica para governos, empresas e investidores.

O problema está na concentração

A primeira característica dessa nova disputa é a concentração das cadeias de fornecimento.

A mineração representa apenas o início do processo. Depois da extração vêm etapas como concentração, refino, separação química, transformação em materiais industriais e fabricação dos componentes utilizados pelas tecnologias finais.

Em alguns minerais, essas etapas estão ainda mais concentradas do que a própria mineração.

A IEA aponta que, excluindo as terras raras, a participação média do principal país refinador dos minerais analisados chegou a 72% em 2025. Nas terras raras, a cadeia de refino e processamento continua altamente concentrada.

Isso cria uma diferença importante entre possuir o recurso e ter influência sobre o mercado desse recurso.

Quem domina o processamento pode exercer influência sobre custos, disponibilidade e capacidade de abastecimento de outros países.

Por isso, a corrida atual também envolve a construção de capacidade industrial.

Da mina para a indústria

Durante muito tempo, a vantagem econômica de muitos países produtores esteve concentrada na exportação de minério.

O desafio agora é avançar para etapas que geram maior valor.

O minério precisa ser processado antes de chegar às indústrias que fabricam baterias, equipamentos elétricos, componentes eletrônicos e outras tecnologias. Essas etapas exigem capital, energia, infraestrutura, conhecimento técnico e capacidade industrial.

A discussão deixa de ser apenas:

“Quanto minério um país consegue produzir?”

E passa a ser:

“Quanto valor esse país consegue capturar antes de exportar o material?”

O Banco Mundial e outros bancos multilaterais vêm defendendo o fortalecimento de cadeias que avancem além da extração, incorporando processamento, manufatura e infraestrutura para aumentar o valor agregado nos países produtores.

Essa mudança pode gerar empregos especializados, desenvolver fornecedores locais e ampliar a participação dos países produtores em setores industriais de maior complexidade.

A inteligência artificial também entra nessa equação

A disputa por minerais críticos não está restrita aos carros elétricos e às energias renováveis.

A expansão da inteligência artificial aumenta a importância da infraestrutura física necessária para sustentar centros de dados, redes de comunicação e sistemas de processamento.

A própria IEA inclui inteligência artificial, sistemas digitais, fabricação avançada, aeroespacial e defesa entre os setores estratégicos que dependem de cadeias de minerais críticos.

Quanto mais a economia depende de computação, eletrificação e infraestrutura digital, maior tende a ser a importância dos materiais necessários para sustentar essas tecnologias.

Os minerais, portanto, passam a integrar a infraestrutura estratégica da economia digital.

O cobre é um exemplo dessa transformação

Entre os minerais críticos, o cobre ocupa uma posição particular.

Ele é fundamental para redes elétricas, equipamentos industriais, sistemas de geração e transmissão de energia e diversas aplicações tecnológicas.

A IEA estima que o cobre terá o maior crescimento absoluto de demanda entre os minerais analisados até 2040, com aproximadamente 7 milhões de toneladas adicionais, impulsionado principalmente pelas redes elétricas e pelas tecnologias de próxima geração.

Isso ajuda a explicar por que o metal se tornou um dos principais focos de investimento da indústria mineral.

Uma eventual dificuldade de ampliar a produção pode ter consequências que ultrapassam o mercado de mineração, afetando o custo e a velocidade de implantação de redes, projetos industriais e infraestrutura energética.

América Latina ganha importância

A América Latina possui uma posição relevante nessa nova configuração.

A região é grande produtora de cobre e também possui importantes reservas e produção de lítio, além de outros minerais estratégicos.

Segundo a IEA, a América Latina e o Caribe respondem por mais de 20% da produção mundial de estanho e zinco e por cerca de 40% da produção de cobre de mina. A região também responde por aproximadamente um quarto da produção global de lítio.

O problema é que a participação na mineração não se traduz automaticamente em participação nas etapas de maior valor.

A região ainda refina apenas uma parcela limitada de sua produção de minerais energéticos.

A oportunidade está, portanto, em ampliar a transformação desses recursos dentro da própria região.

A IEA estima que, caso minerais como lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras fossem refinados localmente e uma parcela maior do cobre fosse processada regionalmente, o valor econômico gerado poderia aumentar significativamente, chegando a cerca de US$ 220 bilhões em 2035.

Para isso, são necessários investimentos em energia, água, transporte, infraestrutura, tecnologia, qualificação profissional e financiamento.

O Brasil entra nessa disputa

O Brasil possui uma posição relevante porque combina recursos minerais estratégicos com uma matriz industrial e energética que pode favorecer novas etapas de processamento.

O país já possui destaque internacional em minerais como nióbio e apresenta potencial em terras raras, lítio, grafite e outros recursos considerados estratégicos para diferentes cadeias tecnológicas.

O desafio é transformar essa disponibilidade de recursos em capacidade industrial.

Isso envolve desenvolver projetos de mineração, processamento e refino, além de criar condições para atrair etapas mais avançadas da cadeia produtiva.

A diferença econômica pode ser significativa.

Em vez de participar principalmente do fornecimento de matéria-prima, o país pode capturar uma parcela maior do valor associado à transformação industrial.

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Uma nova disputa pelo valor

A disputa por minerais críticos também está mudando a relação entre governos e empresas.

Países consumidores querem diversificar fornecedores para reduzir riscos de interrupção. Países produtores querem aumentar o valor capturado localmente. Empresas de tecnologia precisam garantir acesso a materiais estratégicos.

Esse ambiente aumenta a importância de contratos de longo prazo, investimentos em novas minas, reciclagem, infraestrutura de processamento e acordos internacionais.

Também amplia o peso da política comercial.

Restrições à exportação, tarifas, incentivos industriais e políticas de segurança econômica podem alterar rapidamente o equilíbrio de determinados mercados.

A IEA destaca o crescimento das restrições comerciais e a concentração das cadeias como fatores que elevaram os minerais críticos ao centro das agendas de energia, economia e segurança nacional.

O risco para empresas e investidores

Para empresas, o acesso a minerais pode se tornar uma variável estratégica de competitividade.

Uma fábrica pode ter tecnologia, capital e mercado consumidor, mas ainda depender de uma cadeia de suprimentos concentrada em poucos países.

Isso cria riscos de preço, abastecimento e logística.

Para investidores, o cenário abre oportunidades em mineração, processamento, reciclagem, infraestrutura e tecnologias capazes de reduzir o consumo de materiais escassos.

Mas também existem riscos.

Projetos de mineração exigem grandes investimentos, enfrentam licenciamento ambiental, dependem de infraestrutura e podem levar anos para entrar em operação.

Além disso, mudanças tecnológicas podem alterar rapidamente a demanda por determinados minerais.

A IEA informa que o investimento no setor caiu 9% em 2025, enquanto empresas focadas em cobre aumentaram seus investimentos em 8%.

Isso mostra que o crescimento da demanda não significa que todos os minerais serão igualmente beneficiados.

Tecnologia, preço, política industrial e capacidade de oferta continuam determinando quais projetos serão economicamente viáveis.

Reciclagem também entra na equação

Existe ainda uma alternativa capaz de reduzir parte da pressão sobre novas minas: a reciclagem.

A IEA estima que a participação do fornecimento secundário de alguns minerais energéticos pode aumentar significativamente até 2040.

Materiais presentes em baterias, equipamentos elétricos e ímãs podem retornar à cadeia produtiva depois do fim da vida útil dos produtos.

A reciclagem, entretanto, não elimina a necessidade de mineração.

Ela funciona como uma segunda fonte de oferta e ganha importância à medida que aumenta o estoque de equipamentos eletrificados disponíveis para reaproveitamento.

Isso cria uma nova indústria dentro da própria cadeia mineral.

O que está realmente em disputa

A nova corrida por minerais críticos não deve ser entendida apenas como uma disputa por reservas subterrâneas.

O que está em jogo é o controle de uma cadeia que começa na geologia e termina em produtos de alto valor tecnológico.

Mineração, processamento, refino, manufatura, tecnologia, infraestrutura e reciclagem passam a fazer parte do mesmo problema econômico.

Por isso, países com grandes reservas tentam atrair investimentos industriais, enquanto países consumidores procuram diversificar fornecedores e construir cadeias alternativas.

A questão central deixou de ser apenas quem possui o minério.

A pergunta mais importante passou a ser:

quem consegue transformar esse minério em valor econômico e tecnológico?

O que muda na vida real

A disputa por minerais críticos pode parecer distante do consumidor, mas seus efeitos podem chegar aos preços e à disponibilidade de tecnologias.

Baterias, veículos elétricos, redes de energia, equipamentos eletrônicos e infraestrutura digital dependem de cadeias minerais capazes de acompanhar a expansão da demanda.

Quando uma dessas cadeias enfrenta escassez, restrições comerciais ou aumento de custos, o impacto pode se espalhar pela indústria.

Para países produtores, como o Brasil, a questão é ainda mais relevante.

A existência de recursos naturais cria uma oportunidade, mas não garante desenvolvimento econômico.

O resultado dependerá da capacidade de transformar riqueza mineral em investimento, indústria, tecnologia, empregos qualificados e maior participação nas cadeias globais.

O olhar do NVN

A nova corrida por minerais críticos é, na realidade, uma disputa pelo controle da infraestrutura material da próxima economia.

A eletrificação, a inteligência artificial e a digitalização podem parecer fenômenos essencialmente tecnológicos, mas todos dependem de uma base física formada por energia, equipamentos e minerais.

O valor estratégico, portanto, não está somente no recurso enterrado no solo, mas na capacidade de transformá-lo em componentes, tecnologias e produtos competitivos.

Para o Brasil e para a América Latina, isso representa uma oportunidade que vai além de aumentar a produção mineral.

O verdadeiro desafio é decidir se a região continuará principalmente como fornecedora de matérias-primas ou se conseguirá ocupar posições de maior valor nas cadeias industriais que estão sendo construídas.

A disputa pelos minerais críticos, portanto, não é apenas uma nova corrida por recursos naturais.

É uma disputa por valor, indústria, tecnologia e poder econômico.

NVN — informação que vai além do fato para explicar o que ele significa.

Fontes

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