Inflação no Brasil: por que os preços continuam subindo mesmo quando alguns produtos ficam mais baratos

Por Redação NVN · Publicado em · 6 min de leitura

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A inflação brasileira voltou ao centro das atenções depois de um período marcado por movimentos diferentes nos preços. Em agosto, o IPCA, índice oficial de inflação do país, registrou deflação de 0,32%. Já a prévia de setembro voltou ao campo positivo: o IPCA-15 subiu 0,70%, levando o acumulado em 12 meses para 4,47%.

O resultado mostra uma característica importante da inflação: a queda de determinados preços em um mês não significa que o processo inflacionário tenha desaparecido.

Segundo o IBGE, o IPCA de agosto acumulava alta de 4,22% em 12 meses. No IPCA-15 de setembro, o acumulado passou para 4,47%, aproximando-se do limite superior de 4,50% do intervalo de tolerância da meta.

O que realmente significa inflação?

Inflação é o aumento generalizado dos preços de produtos e serviços ao longo do tempo.

Isso é diferente de dizer que todos os preços estão subindo simultaneamente.

Em determinado período, o preço de um alimento pode cair enquanto a conta de energia elétrica aumenta. Passagens aéreas podem ficar mais caras ao mesmo tempo em que determinados produtos agrícolas ficam mais baratos.

O IPCA procura medir justamente essa variação média de uma cesta de produtos e serviços consumidos pelas famílias. O índice considera famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos.

Por isso, a inflação sentida por uma família específica pode ser diferente da inflação oficial.

Quem gasta uma parcela maior da renda com alimentação, energia e transporte, por exemplo, pode perceber uma pressão maior no orçamento do que outra família com uma composição de gastos diferente.

Por que a inflação voltou a subir em setembro?

A principal explicação para a mudança entre agosto e setembro está, em parte, na energia elétrica.

O IPCA-15 de setembro registrou alta de 7,42% na energia elétrica residencial. Em agosto, o item havia apresentado queda de 6,25%, influenciado pelo bônus de Itaipu. Com o fim desse efeito temporário, a conta de luz voltou a exercer pressão sobre o índice.

Os alimentos também voltaram a subir.

O grupo Alimentação e Bebidas avançou 0,40% no IPCA-15 de setembro, depois de dois meses de queda. Entre os produtos que tiveram aumento estavam tomate, arroz e carnes.

Ao mesmo tempo, alguns itens ficaram mais baratos, como feijão-carioca, cebola e café moído.

Isso ajuda a explicar por que inflação não significa que cada produto do supermercado ficará mais caro ao mesmo tempo.

A inflação está dentro da meta?

O regime brasileiro de metas para a inflação utiliza o IPCA como referência. Desde 2025, a meta passou a ser acompanhada de forma contínua, considerando a inflação acumulada em 12 meses.

A meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso estabelece uma faixa entre 1,5% e 4,5%.

O IPCA-15 de setembro, que acumulou 4,47% em 12 meses, ficou próximo do limite superior dessa faixa.

É importante, porém, destacar que o IPCA-15 é uma prévia. O IPCA oficial referente a setembro ainda será divulgado pelo IBGE.

O Banco Central também observa outros indicadores e medidas de inflação para avaliar a trajetória dos preços.

O que os juros têm a ver com isso?

Quando a inflação permanece pressionada, a política monetária passa a ter papel importante.

O Banco Central utiliza a taxa Selic para influenciar as condições financeiras da economia. Juros mais elevados tendem a reduzir a demanda e encarecer o custo do dinheiro, ajudando a diminuir pressões sobre os preços.

Na reunião de setembro, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mas afirmou que a inflação continua acima da meta e que as expectativas permanecem acima do objetivo estabelecido.

No cenário apresentado pelo Banco Central, a inflação acumulada em quatro trimestres é projetada em 5,2% para 2026 e 3,9% para 2027. Para o primeiro trimestre de 2028, a projeção é de 3,2%.

Essas são projeções, e não resultados já realizados.

E a dívida pública? Qual é a relação com a inflação?

A dívida pública aparece no debate porque as condições fiscais podem influenciar as expectativas dos agentes econômicos, os juros e o custo de financiamento do governo.

Em julho, a Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,298 trilhões, segundo o Tesouro Nacional. O estoque cresceu 0,22% em relação a junho, e os juros apropriados contribuíram para o aumento observado naquele mês.

Mas é importante separar as coisas.

Dívida pública maior não significa automaticamente inflação maior.

A relação passa por diferentes canais. Uma trajetória fiscal considerada menos sustentável pode aumentar a percepção de risco e pressionar determinados prêmios de juros. O próprio Copom afirmou em setembro que incertezas sobre a estabilização da dívida pública podem afetar o prêmio a termo da curva de juros e a taxa de juros neutra.

Ao mesmo tempo, a inflação depende de vários outros fatores, como demanda, oferta, alimentos, energia, câmbio, commodities, expectativas e condições internacionais.

Por isso, dívida pública e inflação devem ser analisadas como partes relacionadas do cenário macroeconômico, e não como uma relação automática de causa e efeito.

O que a inflação muda na vida das famílias?

O impacto mais direto aparece no poder de compra.

Quando os preços sobem mais rapidamente que a renda, o consumidor consegue comprar menos com o mesmo valor.

É por isso que uma inflação aparentemente moderada no índice geral pode ser sentida de maneira diferente pelas famílias.

Uma pessoa que utiliza bastante transporte, consome determinados alimentos que ficaram mais caros ou possui uma conta de energia elevada pode perceber uma pressão maior no orçamento.

Outro ponto importante é que a inflação acumulada não desaparece simplesmente porque um índice mensal registrou queda.

Se um produto fica mais barato depois de ter subido muito anteriormente, o consumidor pode continuar pagando mais do que pagava meses ou anos antes.

Por que as expectativas são tão importantes?

A inflação também envolve expectativas.

Empresas precisam decidir preços e salários. Trabalhadores negociam reajustes. Consumidores decidem compras. Investidores avaliam juros e riscos.

Se todos passam a esperar aumentos maiores de preços no futuro, essas expectativas podem influenciar decisões atuais.

Na reunião de setembro, o Banco Central informou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permaneciam acima da meta, em 4,9% e 4,3%, respectivamente.

Esse é um dos motivos pelos quais o Banco Central acompanha não apenas o índice já divulgado, mas também as expectativas e os indicadores que podem antecipar mudanças na trajetória dos preços.

O que pode acontecer nos próximos meses?

O cenário ainda depende de vários fatores.

O Banco Central aponta riscos relacionados ao comportamento dos alimentos, aos preços de energia e petróleo, às expectativas de inflação, ao câmbio e à atividade econômica.

O próprio relatório de setembro destaca que a inflação deve voltar a subir nos próximos meses até o fim do ano, enquanto as expectativas continuam acima da meta.

Isso significa que um único resultado mensal não deve ser interpretado isoladamente.

O que importa para a política econômica é a trajetória dos preços ao longo do tempo.

O que muda na vida real

Inflação não é apenas um número divulgado pelo IBGE.

Ela determina quanto uma renda consegue comprar, influencia reajustes, interfere no custo de serviços e produtos e participa das decisões sobre juros.

O consumidor pode encontrar preços menores em alguns itens e, ainda assim, enfrentar aumento no custo geral de vida.

Por isso, entender inflação exige olhar para o conjunto: preços, renda, juros, expectativas, atividade econômica e condições fiscais.

E esse conjunto será especialmente importante para entender a economia brasileira entre o fim de 2026 e o início de 2027.

O olhar do NVN

A inflação não acontece de maneira igual para todos e também não segue uma trajetória linear.

Um mês de queda não elimina automaticamente as altas acumuladas anteriormente. Da mesma forma, uma alta pontual não significa necessariamente que todos os preços continuarão subindo no mesmo ritmo.

O que os dados atuais mostram é um cenário em que a inflação continua sendo acompanhada de perto, enquanto o Banco Central tenta conduzir os juros em direção a uma inflação mais próxima da meta.

Para o consumidor, acompanhar esses movimentos ajuda a entender por que o dinheiro pode render menos, por que determinados preços mudam rapidamente e por que decisões tomadas na política econômica acabam chegando ao orçamento doméstico.

NVN — informação que vai além da notícia para explicar o que ela muda na vida real.

Fontes

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